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Hamilton Terni Costa

Muito já foi escrito e dito sobre a Drupa 2024. Eu mesmo, em artigos, palestras e no livro "O empresário gráfico e o novo ciclo da inovação tecnológica" (Amazon), coescrito com Carlos Silgado, tenho abordado o impacto da evolução da tecnologia gráfica, inserida na Indústria 4.0, e suas notáveis consequências para o setor gráfico e de conversão.

Não há dúvida de que as empresas gráficas de ponta já vêm incorporando equipamentos que refletem essa evolução tecnológica há algum tempo. É um movimento inevitável, dado o alto grau de competitividade do mercado, onde velocidade de produção, produtividade e custos são pontos fundamentais.

É importante notar que a indústria de impressão no Brasil tem ampliado seus investimentos de forma notável. A importação de equipamentos de pré-impressão, impressão, acabamento e sistemas, que somou US$ 970 milhões em 2023 e superou US$ 1 bilhão em 2024 (sem contar as aquisições no mercado interno), demonstra a busca incessante por renovação e produtividade do parque fabril. Isso é ainda mais relevante considerando a redução de cerca de 20% no número de empresas gráficas e de conversão durante a pandemia.

Claro que, nesses investimentos, nem toda máquina é nova ou de última geração. Muitas empresas optam por equipamentos seminovos que, ainda assim, atendem às suas demandas, seja para ampliação de capacidade ou diversificação da produção.

Aliás, essa é uma discussão muitas vezes velada quando se fala em tecnologias de ponta. Até que ponto as empresas gráficas realmente necessitam da máquina mais moderna e automatizada para suprir as necessidades de seus clientes? Especialmente na América Latina e, particularmente no Brasil, onde o capital é caro e o pagamento de impostos sobre equipamentos importados, por exemplo, recai antes mesmo da chegada das máquinas e sua entrada em operação?

Há empresários que criticam a abordagem comum sobre a urgente necessidade de atualização. Eles entendem que isso faz parte de uma pressão comercial de fabricantes internacionais, que utilizam narrativas futuristas ou argumentos sobre o risco de a empresa ficar para trás, gerando uma sensação de inadequação ou insuficiência, sem levar em conta a realidade dos nossos mercados.

Argumentam também que os elevados investimentos nessas novas e custosas tecnologias, e a consequente automação dos processos, levam a uma concentração de mercado em detrimento das médias e pequenas empresas gráficas.

Até que ponto eles estão certos?

Quanto à pressão comercial, entendo que ela é relativa, embora inegavelmente exista. Contudo, é impossível não enxergar o que chamo de "ponto futuro". Compreender as tendências e saber para onde o mercado caminha é essencial para pensar à frente e planejar. Aliás, basta visitar as grandes feiras do setor para constatar essa realidade, que se impõe e não pode ser evitada.

O que acontece é que, além da possível dificuldade de recursos para adquirir uma tecnologia de ponta, muitos empresários se apegam ao que já possuem, forçando, muitas vezes além do limite, a capacidade de seus equipamentos para atender às novas demandas dos clientes. Um exemplo claro é tentar produzir tiragens mínimas em impressoras offset ou flexográficas, quando estas seriam mais adequadas para uma impressora digital.

Nesses casos, a impossibilidade de aquisição ou a insistência em não aceitar as mudanças, sob a premissa de que "tudo está como sempre esteve", pode levar, em pouco tempo, à perda de clientes e, por consequência, à dificuldade de se manter competitivo no mercado.

Quanto ao outro argumento, há, de fato, alguma razão na preocupação com a concentração de mercados. Essa já é uma tendência do setor, acentuada desde que os segmentos de impressão comercial, promocional e editorial experimentaram reduções de volume.

Nos mercados de volume crescente, como o de embalagens impressas (rótulos, embalagens de cartão, ondulado e flexível), que se tornam cada vez mais estratégicos, grandes grupos internacionais vêm se consolidando e crescendo por meio de aquisições. Esse movimento, aliás, não é novo. Basta recordar o auge dos formulários contínuos, listas telefônicas e do mercado editorial, quando grandes empresas internacionais expandiam sua presença global adquirindo negócios locais.

Naturalmente, o custo dos novos investimentos em alta tecnologia afugenta muitas empresas gráficas que não estão com sua capacidade ocupada. Isso ocorre por não disporem de capital e, por vezes, por não terem clientes e volume compatíveis com suas operações habituais. E esse é um ponto crucial: se não crescem, não investem; se não investem, perdem poder de competição para as empresas mais atualizadas.

Dentro desse cenário, muitas empresas têm buscado alternativas, explorando e adquirindo equipamentos frequentemente classificados como de "segunda linha". Destacam-se, nesse grupo, os fabricantes chineses, além dos indianos e, mais recentemente, coreanos.

Não é de hoje que observamos o crescimento dos equipamentos chineses nos mercados brasileiro e mundial; isso não é novidade para ninguém. Contudo, há uma mudança significativa nesse panorama: o aumento notável da diversidade e da qualidade desses equipamentos.

Na última Drupa e em outras feiras gráficas ao redor do mundo, percebe-se uma limitação no espaço ocupado pelos fabricantes chineses. Caso contrário, eles dominariam esses eventos, embora já apresentem uma presença cada vez maior.

Nas últimas décadas, como se sabe, a China se tornou o centro fabril mundial, e no setor gráfico isso não foi diferente. Grandes marcas alemãs, americanas e japonesas também estabeleceram fábricas naquele país. O Brasil, por exemplo, que possuía uma robusta indústria de equipamentos gráficos – com fabricantes de offsets, flexografias e, principalmente, máquinas de acabamento – viu seu parque industrial reduzir substancialmente de tamanho devido à concorrência chinesa.

A China, com um mercado interno robusto – que conta com mais de 100.000 gráficas e alta produção de embalagens, material promocional e editorial – já é, por si só, um incentivo à fabricação local de equipamentos, o que facilitou e continua a facilitar seu crescimento no exterior. E, mais ainda agora, com a guerra comercial tarifária desencadeada pelos Estados Unidos, os fornecedores de equipamentos chineses voltam-se com maior apetite para outras regiões, sendo a América Latina um dos principais alvos.

Isso também explica a expressiva visitação externa recebida pela 11ª Exposição Internacional de Impressão de Pequim, a China Print 2025, a maior feira gráfica do país, realizada em maio deste ano. Este evento quadrienal, que assim como a Drupa não ocorreu na edição anterior devido à pandemia, gerou um interesse ainda maior nesta edição, que registrou cerca de 200.000 visitantes, 1.300 expositores e 160.000 m² de área.

Muitos já a consideram uma rival da Drupa, onde fabricantes internacionais como Heidelberg, Bobst e Landa também se apresentam ao mercado chinês. A diferença, nesse caso, é que não há limitação para a presença de marcas chinesas na exposição.

Com isso, muitos empresários brasileiros estiveram presentes e realizaram negócios, especialmente no segmento de máquinas de acabamento, uma área onde as empresas chinesas vêm crescendo fortemente.

Retomando o que vinha dizendo sobre as alternativas de investimento que muitas gráficas estão encontrando nos equipamentos chineses, seja comprando no Brasil ou no exterior, destacam-se: custos mais baixos, grande variedade, tecnologia razoável e em sensível aprimoramento, excelente relação custo-benefício e condições de pagamento mais flexíveis.

A questão da assistência técnica é, contudo, fundamental para quem compra e deve ser cuidadosamente considerada na decisão. Nem sempre é fácil ter a garantia de peças e reposições em curto prazo, especialmente para os componentes elétricos e eletrônicos dos equipamentos.

Seja como for, a absorção de novas tecnologias por empresas de menor porte não é o único desafio no mercado atual. Muitas gráficas que consideram ter equipamentos razoavelmente atualizados para suas propostas de valor, vêm encontrando obstáculos em sua área comercial. Isso ocorre, por vezes, por não buscarem alternativas de produtos, explorar novos segmentos de mercado ou, ainda, por não adotarem o que se chama de convergência tecnológica.

Embora não tenhamos uma pesquisa equivalente no Brasil, a Napco Research dos Estados Unidos, hoje parte da Printing United Alliance – a maior associação gráfica daquele país –, revela que 68% das gráficas locais buscaram essa convergência. Em termos práticos, isso significa ir além da especialização em impressão comercial, grandes formatos, promocional ou embalagens e rótulos, para produzir todos esses itens simultaneamente, incorporando equipamentos específicos para cada tipo de produto. É a união de offset com digital, plotters, e até flexografia, corte e vinco e colagem, em menor escala, mas com o objetivo de atender os clientes em seu conjunto de necessidades.

Muitas empresas brasileiras também já adotaram ou estão adotando essa estratégia. Isso se deve, em parte, ao fato de que o acesso aos clientes hoje está mais difícil, especialmente o contato pessoal. Uma amplitude de produtos, aliada a uma abordagem comercial renovada, o uso mais intenso de marketing digital e uma atenção redobrada no atendimento ao cliente, são passos cruciais para a sobrevivência e o sucesso.

Nessa "remontagem" estratégica, adquirir máquinas um pouco mais acessíveis, já com automação, ou mesmo algumas seminovas, pode ser um passo importante. É uma forma de ir se adequando gradualmente até alcançar tecnologias mais competitivas.

Entre as tendências apresentadas na Drupa e as oportunidades da China Print, o foco principal deve ser sempre nos clientes e seus mercados, buscando eficiência e, acima de tudo, olhando para o "ponto futuro".

PUBLICADO NA REVISTA ABIGRAF 324 – ABR/MAI/JUN - 2025